Para Culto de Jovens

ATRAVÉS DE TI

ATRAVÉS DE TI - Teatro Cristão

Eita família!
Um alcoólatra, desempregado e corno.
Uma filha namorada de traficante, a outra prostituta…
Esta família tem uma empregada, Raquel, conhece e segue o  caminho do Senhor…
A empregada faz diferença na vida da família onde trabalha.
Acompanhe o drama, monte a peça.

Carlos entra na sala, coçando a cabeça – com os cabelos desarrumados e a barba por fazer, com um ar de quem dormiu mal à noite e ainda um pouco embriagado. Está procurando alguma coisa.

CARLOS – Eu sei que ainda tem uma por aqui em algum lugar. Eu mesmo coloquei. Com certeza Célia descobriu e deve ter jogado fora ou colocado em outro lugar. Mas ela me paga. Raquel! … Ô, Raquel! (gritando) Onde será que se meteu essa mulher? Raquel! Raqueeeel!…

RAQUEL (entrando, apressada) O que foi, seu Carlos? Pra que isso tudo? Alguém se machucou?

CARLOS – Ainda não, mas se eu não encontrar logo o que tô procurando, alguém vai se machucar, com certeza!

RAQUEL – Seu Carlos, não fale bobagens, não profetize desgraças. Deixe eu ajudar o senhor. O que é que o senhor está procurando?

CARLOS – (ironizando) Veja só, Raquel! É uma garrafa bem bonitinha, bem cheirosinha,

bem cheinha, que eu tinha guardado bem aqui e agora não tá mais. Pernas ela ainda não tem, portanto alguém pegou.

RAQUEL – É a garrafa de cachaça?

CARLOS – (botando as mãos na cabeça) Não! Como tu é inteligente, Raquel! Claro que é a garrafa de cachaça! O que mais poderia ser? Vinagre? E então, foi tu que pegou?

RAQUEL – Não, seu Carlos, não fui eu. Eu nem vi essa garrafa.

CARLOS – E quem foi, então? Sozinha é que ela não saiu daqui!

CÉLIA – (entrando) Fui eu. Peguei e joguei fora. Já lhe falei, Carlos, que aqui dentro você não bebe mais. Já querendo beber a essa hora, seu inútil? Trabalhar que é bom, nada, né? Que belo exemplo de você tá dando pros teus filhos. Vá se arrumar e procurar um emprego.

CARLOS – (covarde) Mas, Celinha, eu só queria tomar um gole pra criar coragem. Eu até fiquei de ir lá no supermercado! Me disseram que lá tinha uma vaga…

CÉLIA – Bêbado?!! Como é que você vai beber para conseguir emprego? Mas que vida mais miserável! Quem é que teria a coragem de contratar um bêbado? Um alcoólatra? Um cachaceiro?

CARLOS – Mas eu só bebo por que estou sem nada pra fazer! Aí, eu vou pro bar e fico conversando com meus amigos… agora, se eu tivesse um emprego…Isso é culpa do governo, que não investe no cidadão!

RAQUEL – Seu Carlos. Eu conheço alguém que podia lhe ajudar a se libertar desse vício.

CARLOS – Vício? Que Vício? Eu não tenho vício nenhum, não. Só bebo socialmente, pra me distrair um pouquinho. Quando eu começar a trabalhar, aí eu paro. Eu paro na hora que EU quiser.

RAQUEL – Não, seu Carlos, o que eu tô querendo dizer é que eu conheço alguém que lhe ajudaria a parar de beber.

CARLOS – Ah bom! Assim é diferente…

CÉLIA – E quem é essa pessoa, Raquel? Algum médico? Por que se for os Alcoólicos Anônimos não vai adiantar! A gente já tentou de tudo. Se você realmente conhece alguém que pode ajudar, me fale. Eu já não tô agüentando mais! Só não vá me dizer que é o seu pastor.

RAQUEL – Não, dona Célia. Eu falo de Alguém que está acima dos médicos e dos pastores. Eu falo Daquele que cura todos os males e doenças. Que levou sobre Ele todas as nossas dores e nos perdoou de nossas transgressões. Eu falo de Jesus.

CÉLIA – Não, Raquel, pregação de novo, não! E já tô cheia de problema e você ainda me vem com essa? Não tenho tempo para essas bobagens.

RAQUEL – Dona Célia, não são bobagens, não! Eu falo com a convicção da minha fé. Eu falo porque me foi dada a missão de falar. E principalmente por que amo muito vocês e sofro ao ver uma família tão bonita ter tantos problemas. Vocês têm a solução bem na frente de vocês e não querem ver.

CÉLIA – Tá bom, Raquel! Outra hora a gente fala sobre isso…

CARLOS (saindo) Amor, tô indo até a esquina ver os amigos.

CÉLIA – Vai, seu inútil. Vá encher sua cara de cachaça e vê se fica por lá mesmo.

RAQUEL – Dona Célia, não fale isso, seu Carlos é uma pessoa boa. Só precisa de ajuda.

CÉLIA – É uma cruz que eu tenho de carregar. (cochichando) Raquel, você sabe se alguém me ligou?

RAQUEL – Dona Célia, por favor, pare com isso. A senhora é uma mulher casada e não pode ter outro relacionamento. Isso é adultério. É contra as leis de Deus.

CÉLIA Eu sei, Raquel. Mas é a única coisa que tá me dando um pouco de alegria, um pouco de paz. Quando eu tô com ele, esqueço por alguns momentos os meus problemas.

RAQUEL – Mas a senhora não vai conseguir resolver os seus problemas assim. Só vai piorá- los. Só quem consegue resolvê-los é Jesus.

CÉLIA – Mas você conhece a minha luta, Raquel. Sabe o quanto eu sofro com essa família! Você devia era rezar, orar, pedir ao seu Deus, pelos meus filhos. Esses sim precisam muito de ajuda. E eu confio muito em você. Agora, deixa eu ir que ainda tenho muita coisa para fazer. (sai).

XANDE – (entrando e abraçando Raquel) Raquelzinha, meu amor, o que é tem para rangar hoje? Tô morrendo de fome!

RAQUEL – Onde é que você tava, seu Xande? Eu tava preocupada com você.

MARCOS – (entrando) Tava com a galera dele. Esse moleque não faz mais nada na vida a não ser freqüentar baile funk e perturbar por aí.

XANDE – E o que é que tu tem a ver com isso, hein? Já fez a cabeça hoje? Já foi pedir benção a Toninho?

MARCOS – Olha, aqui, moleque, se tu não parar com isso, vai se arrepender, visse?

RAQUEL – Parem com isso vocês dois! Não podem se encontrar que já querem brigar?Xande, vá estudar! E você, seu Marcos, vá agora mesmo no açougue pegar a carne pro almoço. Sua mãe mandou.

MARCOS – E cadê o dinheiro?

RAQUEL – Sua mãe não lhe dá mais dinheiro, e você sabe muito bem por quê. Ela mandou pôr na conta.

MARCOS – Que conta? O que eu soube é que a conta no açougue tá suspensa porque o pai não pagou. (bocejando) Além do mais, tô com uma preguiça danada…

TONINHO – (entrando) Deixa de ser preguiçoso, Marquinhos. Toma aqui o dinheiro e traz o que tiver precisando. E volta logo, visse?

MARCOS – (medroso) Claro Toninho, claro. Tô indo já. (sai, rápido)

XANDE – (rindo muito) Marquinhos saiu todo borrado.

TONINHO – Deixa ele, Xande. Tudo bem, Raquel? Cadê minha mina?

RAQUEL – Melissa tá lá na casa de dona Zuleide. Vou chamar.

XANDE – E aí, Toninho, tudo beleza? A turma tá vibrando muito contigo, mano. Quando tu fugiu daquele cerco da polícia todo mundo veio falar comigo por que sou teu cunhado. (orgulhoso) Tudo morrendo de inveja.

TONINHO – É isso aí, moleque! Os home pensa que é fácil pegar Toninho, mas é impossíve. Tenho o corpo fechado pela mãe Zuleide. Ninguém me pega. Nem bala entra no meu corpo! Olha, mas, mudando de assunto, eu soube que tu tava cheirando…

XANDE – Eu?! É mentira, Toninho. Tu sabe que eu não entro nessa parada, não! Não é minha praia, não! Às vezes quando tu me pede, eu até que vou entregar uns papelote pros bacana! Mas entrar nessa, eu não entro, não. Já basta o otário do Marquinhos…

MARCOS – (Voltando) Pronto, Toninho! Tá aqui a carne que tu pediu…

XANDE – Pronto! Falando no mané…

MARCOS – Olha como fala comigo, moleque, senão te dou uns tapa…

TONINHO – Pára com isso vocês dois! Xande, vai ver se tua irmã já tá vindo! Faz um tempão que a Raquel foi chamar e ainda não voltou. Mulher adora deixar a gente esperando.

XANDE – Ok! Poderoso chefão! (aponta para Marquinhos) Cuidado com o golpe aí do xexêro… (sai, rindo)

MARCOS – Eu ainda pego esse moleque…

TONINHO – Deixa Xande pra lá, Marquinhos. E aí? Quando é que tu vai me pagar os último papelote?

MARCOS – Dá mais um tempo, Toninho. Tá pintando umas parada legal aí e vai rolar uma nota preta. Vou acertar tudinho contigo.

TONINHO – Há, mais vai mermo! E espero que seja logo! Já tá atrasado mó tempão! E tu sabe que eu não tenho muita paciência não, né? Não abusa da condição de cunhado, não. É melhor pra tu.

MARCOS – Confia em mim, Toninho. Sou teu parceiro, teu chapa.

ZULEIDE – (entrando com Melissa) Toninho! Como é que vai, meu afilhado? Tá tudo bem com você? Soube que os home quase te pega. Rezei muito pro meus santo pra te proteger. Tá aqui tua princesa, bonita como sempre.

TONINHO – A bença, mãe Zuleide. É, a parada foi pesada, mas com o corpo fechado que tu fez, a polícia nunca vai me pegar, não. Tô sempre na frente!

ZULEIDE – Quando é que tu vai de novo no terreiro? A gente precisa renovar os voto.

TONINHO – Breve, mãe Zuleide, muito breve.

MELISSA – Vamo, Toninho. Que eu não agüento ficar muito tempo nessa casa.

TONINHO – Vamo, Melissa. A bença, mãe Zuleide. Marquinho, não esquece o papo que a gente levou, tá? (sai)

MARCOS – Vó, vou ver a turma… (sai)

SOFIA – (entrando) Vó, a senhora tava aí? Ninguém me avisou de nada. A bença.

ZULEIDE – Minha neta preferida! Já tava doida de saudade. Dá cá um abraço nessa véia que gosta tanto de tu. Nunca mais foi lá em casa. Se eu num venho aqui, a gente passa uns tempão sem se ver, num é? Mas tudo bem, eu perdôo.

SOFIA – Pois é, vó, eu tenho trabalhado muito.

ZULEIDE – (interrompendo) E isso lá é trabalho?

SOFIA -Claro que é, vó. Já te falei num sei quantas vezes. Qual é outro trabalho que me deixa ganhar numa noite o que eu ganharia num mês? Tenho que aproveitar enquanto tô nova, bonita. Freguês é o que não falta.

ZULEIDE – Tá certo minha neta. E demais nunca vi ninguém morrer por causa disso. Se tu tivesse tido um pai que prestasse, talvez tu tivesse estudado, feito uma faculdade, virado doutora! Mas tua mãe foi te dar um traste daquele como pai, olha aí o resultado…

SOFIA – Vó, deixa o pai em paz. Vou indo que eu vou no salão ajeitar os cabelo. Tô pensando em dar umas luzes. O que a sra acha?

ZULEIDE – Vai ficar mais bonita ainda. Quando é que tu vai querer fazer a cabeça? Tá chegando o tempo. Tenho que te preparar pra ser minha sucessora.

SOFIA – A senhora sabe que eu não gosto dessa conversa. Agora deixa eu ir. Tchau.

ZULEIDE – Eu vou esperar tua mãe. Preciso falar com ela. (senta no sofá)

CARLOS – (entra) Vixe! Vixe! Vixe! Vixe! Quanto mais eu rezo, mais assombração me aparece! Que é que tu quer aqui, hein? Viesse fazer umas macumbinha, foi?

CÉLIA – (entra, dando um tapa nele) Pára com isso, Carlos! Já começou? Vocês não podem se ver que já começam a se estranhar? Já tô cansada dessa conversa.

ZULEIDE – Deixa ele, minha filha. O que é dele tá guardado. Não perde por esperar.

CARLOS – Celinha, cuidado com as vassoura, visse? Se essa daí vê uma, é capaz de querer dá umas voltinha. (dá uma piscada pra Célia) Ôôô, Zuleide, Zuzuzinha! Não fica chateada comigo, não. Eu só brinco contigo porque gosto de tu! Tô até pensando em fazer uma estátua pra tu! Eita, tive uma idéia! A gente pode até colocar na frente do terreiro, Zuleidinha! (pausa) Agora, tem um problema: eu só não sei ainda como vou fazer pra tu engolir o cimento! (sai, rindo)

ZULEIDE – Não sei como é que tu ainda agüenta esse cachaceiro, esse imprestável. Se tu tivesse me ouvido…

CÉLIA – Eu sei mãe, mas agora já é tarde.

ZULEIDE – Que tarde que nada. Tu tá jovem, bonita, cheia de vida. Agora tem que ficar sustentando vagabundo, que não quer saber de trabalho e só vive embriagado. (baixando a voz) E cadê o fulano? Eu sei que tu ainda se encontra com ele. Não minta pra sua mãe.

CÉLIA – (triste) É só um caso, mãe. Não é nada sério, não. É tudo sem compromisso. É melhor assim. Cada um com sua vida e cada um com sua cruz. A minha é essa família. Um alcoólatra, um viciado em drogas, uma garota de programa, um funkeiro e, ainda por cima, uma sonhadora e romântica que é amante de um traficante. É demais pra mim! Tá certo que Toninho ajuda muito aqui em casa, mas eu tenho medo de que ele seja morto pela polícia ou por outros traficantes. Ou envolva a Melissa em alguma complicação. A única equilibrada nessa casa é Raquel. Com aquelas conversas de Jesus, de salvação, de ser crente, ainda traz um pouco de paz…

ZULEIDE – (interrompe, zangada) Não me fale dessa desmiolada. Tu já devia ter mandado ela embora daqui faz tempo. É exatamente essa mulher que tá trazendo toda essa desgraça pra essa casa. Se vocês todos me ouvissem e fossem lá no meu terreiro tomar uns passes e uns banhos tudo isso já tinha sido resolvido. Bem, mas se conselho fosse bom não se dava, se vendia, não é mesmo? (se levanta) Já vou, minha filha. Minhas obrigação me chama. Outro dia, eu passo aqui. Aí, a gente conversa melhor.

CÉLIA – (leva Zuleide até a porta) Tá certo, mãe. (dá dois beijos na mãe e depois volta para a sala e senta meio desolada no sofá)

RAQUEL – (entra e senta ao lado dela) Dona Célia, que é que a senhora tem?

CÉLIA – É o de sempre Raquel. Essa minha vida que não muda nunca.

RAQUEL – Por que a senhora não vai comigo até a minha igreja? A gente conversa com o pastor e depois ora. Garanto que a sra vai se sentir bem melhor. Só Jesus é quem traz paz para nossos corações e solução para todos os nossos problemas. Ele disse em Salmos: “Entrega teu caminho ao Senhor, confia n’Ele, e Ele tudo fará.” Esse, dona Célia, é o versículo da minha conversão. Foi através dele que Jesus mudou a minha vida, e pode mudar a da senhora também. Ele falou também no livro de Mateus: “Vinde a Mim, vós que estais cansados e sobrecarregados e Eu vos aliviarei”. A senhora está cansada demais. Entregue os seus problemas a Ele que Ele resolve. A senhora vai ver.

CÉLIA – Tá certo, Raquel. Vou pensar bastante no que você me falou. Obrigada! Já me sinto bem melhor, mais leve. É engraçado. Toda vez que você conversa comigo, eu me sinto mais descansada. O que é isso? Você tem calmante na voz?

RAQUEL – Não, dona Célia. É Jesus lhe aliviando das suas dores. Vou continuar orando pela senhora.

CÉLIA – Como é que você ainda agüenta trabalhar aqui? Tá com o salário atrasado, Carlos lhe trata mal e minha mãe, ainda não sei por que, lhe odeia. Você só vive falando de Jesus pra todo mundo e ninguém lhe ouve, mas você trata a todos com tanto amor, tanto respeito. Eu não entendo…

RAQUEL – Eu creio, dona Célia, que ainda vou ver toda essa família, inclusive dona Zuleide, aos pés do Senhor Jesus. Se eu ainda estou aqui, é porque Ele tem um propósito. Ele ama muito a todos vocês. Ele vai curar seu Carlos e Marquinhos dos vícios deles. Vai tirar Sofia dessa vida errada, vai dar juízo pra Xande e vai dar um bom emprego pra Toninho e ele vai se casar com Melissa e vão ser muito felizes. A senhora vai ver.

CÉLIA – Espero que você esteja certa. Boa noite, Raquel. (sai)

RAQUEL – Boa noite, dona Célia. (continua sentada)

Melissa entra, desesperada, amparando Toninho todo ensangüentado, ofegando muito. MELISSA – (chorando) Raquel, por favor me ajuda! Toninho foi baleado num barzinho por

uns cara de outro morro! Tá todo mundo atrás dele. Tão querendo tomar a boca de fumo dele. Ele não tava fazendo nada. Me ajuda. Ele já perdeu muito sangue. Me ajuda!

RAQUEL – (ajuda a colocar Toninho no sofá) Calma, Melissa. Vamos cuidar desse ferimento. Deixa eu ver como tá. (olha o ferimento). Espera um pouco. (vai buscar o material para lavar e fazer o curativo. Melissa fica ao lado de Toninho)

MELISSA – (chorando) Ele vai morrer! Ele vai morrer, Raquel!

RAQUEL – Não vai cair um só fio de cabelo da cabeça dele, se essa não for a vontade de Deus. Fica calma, minha filha! Deus vai nos ajudar! (Toninho geme e se mexe) Toninho, consegue me ouvir? A gente tá fazendo um curativo e precisa levar você prum hospital.

TONINHO – (falando e tossindo) Não, hospital, não! A polícia tá de plantão nos hospitais… Melissa, chama um médico pra cá…

MELISSA – Tá certo, Toninho, vou ligar agora! (sai).

TONINHO – Mãe Zuleide disse que eu tinha o corpo fechado, que bala não entrava.(tosse) Aquela velha mentirosa…

RAQUEL – Toninho, só quem tem o poder de proteger nossos corpos é Jesus, mais ninguém.

TONINHO – (com muita dor) Mas ela disse, ela fez as reza, ela fechou meu corpo. E agora? Vou morrer? Cadê esse médico que não chega? Tá doendo muito!

CÉLIA – (entra com Carlos) Raquel? Toninho? O que aconteceu? A gente encontrou Melissa lá fora! Ela tava muito nervosa e não conseguiu dizer nada… falava em morros, tiros… O que, afinal, aconteceu?

RAQUEL – Toninho foi baleado por uma gangue rival e tá sangrando muito. Melissa foi chamar um médico.

ZULEIDE – (entra, apressada, com umas folhinhas na mão) Toninho, eu soube agora do que aconteceu.(empurra Raquel para ficar perto de Toninho) Mas não se preocupe. Vamos benzer os ferimento e você vai ficar bom logo, logo! Você vai ver…

TONINHO – Não toque em mim, sua velha mentirosa!

ZULEIDE – Peraí, Toninho!

TONINHO – (interrompe) Você me falou que eu nunca ia ser ferido nem baleado! Que tinha uma penca de protetor ao meu redor, cuidando de mim. Veja agora como é que tô. Os cara vão tomar minha boca. Sai daqui, sai de perto de mim!

ZULEIDE – Mas, Toninho, calma! Vou fechar teu corpo de novo e você vai ficar bom, você vai ver! (olha para Raquel com raiva) Foi essa mulher aí que botou coisa na tua cabeça, não foi?

TONINHO – Sai daqui! Não toque em mim! (tosse)

Enquanto Zuleide sai, triste, Marquinhos, Xande e Sofia entram.

MARCOS – Toninho, como é que tu tá? Tá a maior confusão lá no morro. Uns cara diz que tu morreu, outros diz que tu tá mal no hospital… A gente correu pra cá…

XANDE – Calma, Toninho! Vai dar tudo certo. Se tu quiser, eu falo com a turma e a gente vai resolver essa parada prá tu.

TONINHO – Te aquieta, moleque. (tosse) Isso é parada pra gente grande. (ofegante)

MELISSA – (chega com o médico) Pronto, Toninho, tá aqui a doutora.

PAULA – (abre os curativos e olha os ferimentos) E aí campeão, no que foi que tu te meteu? (quando olha para os ferimentos faz uma cara bem feia) É, a coisa não tá muito bonita não. Vai precisar de cirurgia. (olha para Melissa) Vou ter que levar ele para um hospital…

TONINHO – Nada feito, doutora. Se é pra morrer no hospital, ou nas mãos da polícia, eu prefiro morrer aqui. (tosse).

PAULA – Mas, Toninho, é arriscado, você não pode resistir. Tem que ir a um hospital.

TONINHO – Não! Eu sou homem, doutora, eu agüento. Já disse que pro hospital eu não vou!

PAULA – Tudo bem, se é assim que você quer… (passa um tempo retirando a bala) Pronto, já tirei a bala. Não posso fazer mais nada. (Toninho está inconsciente)

MELISSA – Toninho? Ele desmaiou, doutora!

PAULA – Eu falei que era arriscado. Agora, não há mais nada a se fazer. Ele já perdeu muito sangue. Só um milagre vai fazer ele sobreviver. O limite da ciência é aqui.

RAQUEL – (levando a médica até a porta) Mas o limite de Deus não, doutora. Deus tem poder para curar ele. Deus pode operar esse milagre que a senhora falou.

XANDE – Eu vou até a rua pra ver como é que tão rolando os boato.

MARCOS – Peraí, que eu vou contigo…(saem)

RAQUEL – Sofia, vai até a farmácia e compra uns medicamentos para eu fazer uns curativos melhores.

SOFIA – Certo, Raquel. Volto já.

RAQUEL – Dona Célia, Seu Carlos, é melhor vocês saírem também. Quanto menos gente ficar junto, melhor.

CÉLIA – Tem razão, Raquel. Vamos, Carlos.

CARLOS – Tá certo, bora. (saem)

RAQUEL – Melissa, agora só Deus pode curar Toninho. Você acredita nisso? Você crê no poder de Deus?

MELISSA – (enxugando as lágrimas) Sim, Raquel eu creio. Eu acredito que esse seu Deus pode curar Toninho.

RAQUEL – Meu Deus só não, Melissa. Ele é o nosso Deus! Ele é tão meu, quanto seu. Ele age tanto na minha vida quanto na sua.

MELISSA – Mas eu faço tantas coisas erradas, tenho uma vida tão cheia de pecados. Como é que ele vai querer agir na minha vida?

RAQUEL – É só você O aceitar como seu Senhor e suficiente Salvador. A partir daí, Ele vai começar a agir na sua vida, porque você o convidou para isso. Ele não invade a vida de ninguém. Ele espera que as pessoas O aceitem e abram seus corações para Ele.

MELISSA – Só isso?!

RAQUEL – É Melissa, só isso. É o que a gente chama de conversão. Mas tem que ser sincera. Uma verdadeira e sincera vontade de mudar de vida e de se tornar fiel aos ensinamentos da bíblia. Deus pode curar Toninho. Você gostaria de fazer comigo uma oração pela cura dele e ser testemunha de um milagre?

MELISSA – Sim gostaria! E se Toninho realmente for curado, eu vou entregar minha vida a Jesus.

RAQUEL – Vamos fechar os nossos olhos, então! (se ajoelha e impõe as mãos sobre Toninho)

Música e Dança – “Se tu quiseres crer” – Soraya Moraes

TONINHO (despertando) Ahn…Ahn… Onde é que eu tô? O que tô fazendo aqui? O que aconteceu?

MELISSA – (chorando de alegria) Toninho, você tá curado! Jesus te curou!…

TONINHO – (voz cansada) Como assim, Jesus me curou? Cadê o médico? A última coisa que me lembro foi ele dizendo que nada mais poderia ser feito. Que eu iria morrer. Tá vendo? Ele tava errado, tô vivinho da silva…

RAQUEL – Não, Toninho, ele não tava errado, não. Realmente, você ia morrer. Mas você foi curado pelo médico dos médicos.

TONINHO – Como assim, médico dos médicos? Melissa, me explica isso. Eu sinto que alguma coisa estranha aconteceu aqui…

MELISSA – (chorando, emocionada) Foi sim, Toninho, foi Jesus quem te curou. Foi Jesus quem operou o milagre, essa coisa estranha que você falou. A doutora já tinha te desenganado e Raquel orou a Deus para que Ele te curasse. E ele atendeu os nossos pedidos.

TONINHO – Nossos?!

MELISSA – Sim, Toninho, nossos! Oramos juntas, Raquel e eu. E eu aceitei Jesus como meu salvador. Resolvi deixar minha vida de erros pra trás. Quero ter uma nova vida em Cristo. (pausa) Toninho, quero que você continue a tua vida comigo, nessa nova condição. A de seguirmos a Jesus.

TONINHO – Melissa, eu tô me sinto curado! Alguma coisa dentro de mim mudou. Me sinto

um novo homem.

RAQUEL – É o poder de Deus agindo na tua vida, Toninho. Mas Ele só vai continuar

operando se você permitir.

TONINHO – Zuleide sempre disse que meu corpo era fechado. Tudo mentira. Quando mais precisei desse meu corpo fechado, vi que era tudo papo furado, que nem ela e nem seus santos tem poder algum. Sim, Melissa. Sim, Raquel. Eu quero aceitar a Jesus, porque esse sim, tem poder. Ele me curou, me livrou de morrer hoje. Eu quero ser um novo homem, ter uma nova vida. (abraça Melissa)

XANDE – (entra) Que choradeira é essa, hein? Aí mano, a boca ainda é tua, a turma botou

os cara pra correr. Puxa, pensei que tu não ia escapar dessa, tu tava mal pra caramba.

MARCOS – (entra) Toninho, como é que tu tá assim? O doutor não falou que tu não tinha mais jeito?

TONINHO – Tu bem que queria me ver morto, né? Assim tu não me devia mais nada. Mas eu fui salvo sim. Fui salvo por Jesus. Aquele mesmo Jesus que Raquel sempre falou pra gente e nunca prestamos atenção, nunca demos importância. Marquinhos, a partir de agora, tu não me deves mais nada. Eu quero é te ver curado desse vício.

Já vi muita desgraça acontecendo por causa dela. Sai dessa cara. Faz como eu fiz: te entrega a Jesus, que Ele vai te salvar. (para Xande) Xande, eu sei que tu sempre me admirou muito, mas agora o teu herói morreu. O cara que enfrentava qualquer parada morreu. Eu sou um novo homem. Minha vida era vazia e sem sentido. Eu só fazia mal pras pessoas.

XANDE – Caramba, cara, tu mudou mesmo, hein? Não, Toninho! Agora é que tu é meu herói mesmo. É preciso muita coragem pra fazer o que tu tá fazendo. Tu tá deixando tudo pra trás. Eu tô nessa contigo. Eu te via ali, cheio de responsa, de

coragem, todo mundo te respeitando. Eu queria ser que nem tu. Mas…

TONINHO – Era tudo ilusão Xande, tudo mentira…

MARCOS – (chorando) Toninho, o que é que os cara vão dizer? Como é que vai ficar as coisa agora?

TONINHO – Não me importa, Marquinhos! E quero te ver livre dessa também. Agora tu não tem mais ninguém prá sustentar teu vício. A conversa agora é diferente. Se tu ficar devendo aos cara, como é que vai ser?…

MARCOS – É verdade, Toninho. Eu sei que vai ser difícil, mas eu vou sair dessa.

TONINHO – Marqunhos, quem vai te ajudar a sair dessa é Jesus. Só Ele tem poder pra te livrar do vício.

Entram Célia e Carlos, de mãos dadas.

CÉLIA – Toninho, que milagre foi esse? Você já tá bom?

MELISSA – Foi Jesus, mamãe. Ele curou Toninho. Raquel orou e Deus o curou. Foi um milagre!

CÉLIA – Então, a gente tem mais um milagre pra contar. Seu pai e eu conversamos sobre tudo o que a gente tava vivendo e vimos que tínhamos que mudar. Não dava mais pra agüentar.

CARLOS – É… E bebida? Nunca mais!!! (esfrega as mãos feliz) Amanhã, vou procurar

emprego e ser um verdadeiro dono de casa. Vocês vão ver.

CÉLIA – Raquel, depois que você me falou aquelas coisas sobre Carlos ser curado do vício, sobre a salvação da minha família, alguma coisa dentro de mim ficou diferente. (olha para Carlos com carinho) Já conversei com ele sobre aquela minha outra relação e pedi perdão.

CARLOS – Pois é. E eu perdoei ela e também pedi que me perdoasse. Pela bebida… pela preguiça… Também com um marido como eu, o que mais podia ter acontecido?

SOFIA(entra, apressada) Pronto Raquel, tá aqui os remédios… (olha pra todos) Aí tchurma, que felicidade é essa, hein? (olha para Toninho) Ué! Toninho já tá bom? O cara tava mal pra caramba. Agora já tá aí, todo esperto. Aí cunhadão, tu é ruim mermo, né? Confirmei. É como todo mundo fala. Vaso ruim não quebra mermo. (olha para os pais) E esses dois aí no maior love? Só vivem no maior quebra-pau, agora parecem dois bestões de tão sorridentes. Sei não, alguma coisa muito esquisita aconteceu aqui. Querem fazer o favor de me contar?

RAQUEL – Sofia, você acredita em milagres?

SOFIA – (irônica) Só se minha conta bancária aumentar sem eu ter depositado nada. Claro que eu não acredito em milagres.

CÉLIA – Pois pode começar a acreditar, minha filha.

MELISSA – Toninho foi curado depois que a Raquel orou para Jesus. Na mesma hora, ele já ficou melhor.

MARCOS – E depois, os velhos entraram aqui todo sorridentes, parece que tavam numa lua-de-mel…

XANDE – É, os dois tão numa felicidade de dar pena…

RAQUEL – Pois é, Sofia. Você tá vendo um verdadeiro milagre de Deus. Do único Deus vivo. Do único que realmente tem poder, e ele agora tá te chamando para ser Dele. Para que Ele possa fazer um milagre também na sua vida. Te libertar dessa vida, te devolver o amor-próprio e a tua dignidade. (abraça Sofia)

SOFIA – (chora) Puxa, Raquel, nunca te vi falando assim, com tanta autoridade. Nunca senti tanto amor nessa família como tô sentindo agora…

TONINHO – E aí, Sofia, tu queres que Esse Deus que me salvou te salve também? Eu sei que a vida que tu leva é difícil, que tu é louca para sair dessa.

SOFIA – (chorando de alegria) Sim, Raquel, sim Toninho! Eu quero deixar essa vida pra trás. Eu sempre quis. Só não sabia como. Nunca ninguém procurou me orientar, me ajudar, como vocês tão fazendo agora… O que é que eu devo fazer?…

RAQUEL – Mude a direção dos teus caminhos! Deixe tudo o que você vivia antes pra trás! Deus vai cuidar de você.(fica abraçada a Raquel)

O cenário fica sombrio, os atabaques de macumba tocam e Zuleide entra em cena

ZULEIDE – Mas o que é que tá acontecendo aqui? Alguém pode me explicar? (para Toninho) Meu afilhado, meus santo te salvaro…

TONINHO – Que teus santo que nada. Quem me salvou foi Jesus. É a Ele que eu devo a minha salvação. Não aos seus santos de mentira.

ZULEIDE – (para Raquel, com ódio) Foi você! Foi você! Você com esse comportamento de menina boazinha. Você engana a todos aqui, menos a mim. Você prega um deus que não existe, um deus que não tem poder, que ninguém vê, ninguém toca e que ninguém ouve. Um deus que…

RAQUEL – Cale-se dona Zuleide, em nome de Jesus! A senhora não percebe as besteiras que tá falando? Os seus deuses é que são de mentira. São deuses que não tem poder a não ser o poder que o Deus verdadeiro permite que eles tenham. Chegou ao fim a sua influencia nesta casa. Chegou ao fim as suas feitiçarias. Eu declaro agora que essa casa e todos os que moram aqui pertencem ao Senhor Jesus.

Zuleide cai ao chão de joelhos e começa a chorar.

ZULEIDE – O que vai ser de mim? Então tudo em que acreditei até agora são mentiras? Meus deuses são falsos? Não têm poder algum? Sem minha família não sou ninguém. (para Sofia) Minha neta, sempre quis que você fosse minha sucessora. Vejo agora que tu não irias herdar nada, porque nada havia para ser herdado. Me perdoe. (para todos) Me perdoem todos vocês…

RAQUEL – Dona Zuleide, quem está te perdoando agora é Aquele que trouxe o perdão ao mundo, Jesus Cristo. Ele agora te chama para que renuncies a esses falsos deuses, abandones as tuas práticas erradas e se entregue a Ele. Queres fazer isso?

ZULEIDE – Renunciar?! Renunciar?! Como eu deixar de lado uma vida toda? Como posso me tornar uma outra pessoa, se eu sou tudo aquilo em que acreditei até hoje?

RAQUEL – Basta que a senhora nasça de novo.

ZULEIDE – E como pode uma pessoa nascer de novo, sendo velha?

RAQUEL – Esse novo nascimento que Jesus fala, dona Zuleide, não é nascimento da carne, e sim, o nascimento do espírito. O nascimento de uma nova Zuleide, uma nova mulher. Livre de uma vida cheia de enganos e pecados e cheia do poder e do amor de Deus.

ZULEIDE – Sim, eu quero nascer de novo. Eu quero deixar essa minha vida de erros e enganos. Quero ser uma nova criatura em Cristo, quero viver em união com minha família e com você, Raquel. Peço que me perdoe. Como te julguei mal, como te maltratei. Mas Deus te usou pra mudar nossos problemas. Através de ti essa casa foi salva. Sim, Raquel, foi através de ti.

RAQUEL – Sim, dona Zuleide. Jesus me usou como instrumento para que a salvação chegasse a esta casa. E Ele também quer usar cada um de vocês. (para a platéia) Seja na tua casa, no teu trabalho ou em qualquer lugar que você vá. Venha juntar-se a nós e receba o Senhor Jesus como único e suficiente Salvador da sua vida. Para que através de você seja manifesta a glória daquele que vive e reina para todo sempre, porque Deus também quer operar…

TODOS – Através de Ti.

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